(215) Sentindo o “escutar interior” da nossa intuição.

Muito pouco se sabe sobre a nossa capacidade intuitiva. Para Carl G. Jung, a “intuição” é uma função psicológica (OC, Tipos Psicológicos, vol. 7). A sua origem etimológica vem do latim “intueri”, que significa “ver por dentro”. Na linguagem popular, a manifestação feminina também é conhecida por “sexto sentido”. O ensaísta francês Joseph Joubert dizia que pela razão podemos ser advertidos sobre “o que devemos evitar”; pela intuição, sobre “o que devemos fazer”. Pelo meu “sentir”, intuição é percepção de “sabedoria interior” e, portanto, fonte sensória de “autoconhecimento”. Por sua vez, sendo a nossa consciência “transpessoal” (mensagem 191) acredito que em razão do nosso atual ciclo de evolução e necessidades de crescimentos em todos os sentidos, também podemos receber intuições sensoriamente imantadas com essência de espiritualidade transcendente.

Em entrevista concedida ao jornalista Steve Ayan, publicada na Edição Especial 54, Ano XI, da Revista Mente e Cérebro, lançada no Brasil pela Editora Segmento com conteúdo estrangeiro licenciado pela Scientific American, esclarece o cientista cognitivo e doutor em psicologia Thomas Goschke:

1.Sobre a que se referem os psicólogos, quando falam de intuição.
Goschke. Em princípio, o conceito é indefinido, porque, no dia a dia, ele é aplicado a todo tipo de inspiração espontânea, seja na tomada de uma decisão, na solução de uma tarefa intelectual ou em relação a qualquer pressentimento inexplicável que tenhamos. O psicólogo Carl G. Jung contrapunha a intuição – como compreensão imediata e integrada de relações diversas – à decomposição lógico-analítica. Como tinha um sabor esotérico, essa concepção ficou malvista pela psicologia experimental. Mas, nos últimos 30 anos, o estudo do processamento implícito de informações viveu uma verdadeira explosão. E, nesse contexto, também o conceito de intuição voltou a ser aceito. Segundo o prêmio Nobel americano Daniel Kahneman, elas seriam “rápidas”, sem esforço, semelhantes à percepção”. Mas é claro que as impressões intuitivas se fundam em processos mais ou menos complexos. Em linhas gerais, podemos considerar que a intuição seja uma forma de apreensão menos óbvia do mundo.

2.Sobre o que significa “processamento implícito”.
Goschke. A intuição é a capacidade de fazer um julgamento sem ter consciência das informações em que se baseia. Na música, por exemplo, muitas vezes bastam algumas notas para distinguirmos um solo de guitarra de Prince de outro de Santana. Para isso não é necessário que, primeiro, se analise conscientemente o fraseado ou a harmonia. Em geral, nem sabemos dizer o que nos levou a um juízo específico.

3. Sobre se nesse processo as emoções desempenham um papel importante.
Goschke. Com certeza. Por um lado, os juízos intuitivos muitas vezes se expressam em sentimentos. As emoções influenciam também na maneira como tomamos decisões. Há indicações de que, quando nosso estado de espírito é positivo, relaxado, tendemos mais ao juízo intuitivo que à ponderação analítica. Se tristes ou deprimidos, ao que parece, é o contrário.

4.Sobre se existem situações em que nos deixamos guiar mais pelas intuições.
Goschke. Se temos pouco tempo é, sobretudo, no juízo intuitivo que confiamos, pelo simples fato de que a análise consciente de uma situação tomaria tempo demais. Também o estado de espírito parece exercer alguma influência. Experimentos envolvendo os chamados juízos coerentes comprovam isso. Dávamos três palavras aos voluntários e perguntávamos se existia uma quarta que combinasse com as outras três. Por exemplo: “canário”, “página”, e “manteiga”. A resposta é “amarelo”. trata-se de conexões semânticas distantes, verificadas previamente. Mas, às vezes, a tríade de palavras proposta era um agrupamento arbitrário, sem nexo semântico. Havendo coerência, não é raro que os voluntários, embora sem poder apontar uma palavra concreta, estejam certos de que existe um denominador comum. Eles têm, portanto, o sentimento intuitivo, o que com frequência permite que identifiquem essas tríades semanticamente coerentes. Antes do teste colocamos os voluntários num estado de espírito alegre ou triste. Os bem-humorados produziram quantidades significativamente maior de intuições acertadas que os de humor neutro. Tristes não conseguiram fazer nada.

4.Sobre se somos criativos num estado de espírito positivo.
Goschke. Há controvérsias. Ideias criativas têm muito a ver com a capacidade de estabelecer associações incomuns e, desse modo, escapar à trilha habitual do pensamento e da ação.Segundo os resultados que obtivemos, isso parece acontecer com mais frequência quando estamos mais alegres ou relaxados, mas ainda precisamos estudar melhor esse tema.

5.Sobre a diferença entre o hemisfério cerebral direito, intuitivo, e o esquerdo, lógico-racional.

Goschke. É uma ideia fácil e, por isso mesmo, tentadora querer atribuir a velha oposição entre intuição e lógica aos dois hemisférios cerebrais. Mas há aí muito mais especulação pseudocientífica que comprovações empíricas seguras. Existe, de fato, uma certa divisão do trabalho entre ambos. Uma hipótese reza, por exemplo, que porções do lado temporal superior direito efetuam associações mais distantes de significados, ao passo que as regiões ligadas à linguagem do hemisfério esquerdo são mais especializadas em significados escritos. A mesma coisa também foi comprovada em relação à avaliação intuitiva da coerência semântica, o que fazemos com o auxílio da ressonância magnética funcional. Essa região do hemisfério direito costuma ser associada ainda a outras capacidades intuitivas, tais como advinhar as intenções dos outros ou avaliar em que medida um rosto desconhecido parece ou não confiável.. Mas é preciso dizer com todas as letras que, da intuição, com certeza não participa apenas uma região específica do cérebro, e sim toda uma rede amplamente distribuída.

6.Sobre se nesse caso não seria de esperar uma participação de centros processadores de sentimentos.
Goschke. Em princípio sim. Não foi o caso do nosso estudo, mas outras pesquisas indicam que o juízo implícito caminha lado a lado com a atividade de centros mais profundos da emoção, como a amígdala. Reações emocionais inconscientes podem, portanto, estar na base das intuições.

7. Sobre quando devemos confiar na intuição e quando é melhor que se dê preferência à análise lógica dos fatos.
Goschke. Isso, é claro, não é possível para responder assim, de forma generalizada. A intuição se baseia no saber advindo da experiência, tanto faz se adquirido no âmbito de um experimento ou em anos de treinamento. Pense num enxadrista profissional, que numa fração de segundo faz a jogada correta, ou no bombeiro que pressente intuitivamente onde está o foco do incêndio. Em geral, sem o saber específico correspondente, também a intuição falha.

8.Sobre se podemos afirmar que as decisões intuitivas nem sempre são as mais corretas, mas também podem trazer mais bem-estar porque provocam menos arrependimentos.
Goschke. Alguns psicólogos da motivação suspeitam que o nosso bem-estar psíquico depende do grau de coincidência entre as nossas metas conscientes de ter o controle ou de ser melhor que os outros é adquirida cedo na infância e acessível à consciência apenas em parte. Se a postura racional de uma pessoa se distancia muito dessa necessidade,ela com frequência sentirá menos alegria com seus sucessos.

Notas:

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3. Sugestão de leitura complementar (Mensagem 044).

Muita paz e harmonização interior.

Sobre Edson Rocha Bomfim

Sou advogado, natural do Rio de Janeiro e moro em Brasília. Idade: Não conto os anos. Tenho vida. Gosto de Arte, Psicologia, Filosofia, Neurociência, Sociologia, Sincronicidade e Espiritualidade. Autores preferidos: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Mark Nepo, Cora Coralina, Clarice Lispector, Lya Luft, Mia Couto, Mario Sergio Cortella e Mauro Maldonato. edsonbsb@uol.com.br
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