“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil.”
São palavras de Rubem Alves (1933-2014), que em vida foi psicanalista, educador, teólogo e escritor.
Realmente falar mais parece ser uma tendência da maioria dos seres humanos, mas não sei explicar. Talvez seja muito comum, quando já temos a nossa opinião formada. Dentre muitos outros, vejam o que já disseram sobre o nosso “escutar”: Heráclito – “Se não sabe escutar, não sabe falar” / Madre Teresa – “A oração torna nossos corações transparentes e só um coração transparente pode escutar a Deus!” / Antoine de Saint-Exupéry em “O Pequeno Príncipe”, cap. III – “O principezinho, que me fazia milhares de perguntas, não parecia sequer escutar as minhas. Palavras pronunciadas ao acaso e que foram, pouco a pouco, revelando tudo.” / Caetano Veloso – “Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe O inesperado faça uma surpresa E traga alguém que queira te escutar” e Johann Goethe – “Falar é uma necessidade, escutar é uma arte.”
Gosto deste comentário de Ana Suy Sesarino Kuss, que possui doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise, é mestra em Psicologia, especialista em Psicologia Clínica – Abordagem Psicanalítica, e formação em Psicologia – (PUCPR): – “Quando a gente se propõe a escutar alguém, presta atenção na pessoa, observa, quer saber mais sobre o que ela está falando. Muitas vezes, a sensação de passar horas conversando com um amigo pelo qual a gente se interessa é a de que o tempo passou muito rápido! Mas qual a diferença, então, entre o tempo bem aproveitado que passa rápido e a aceleração do tempo, que faz a gente sentir como se estivesse tendo o tempo roubado? Minha hipótese é: bem viver o tempo. Se estamos fazendo bom proveito do tempo, nos sentimos alegres com a rapidez da passagem do tempo – e essa sensação de tempo que passa rápido é um contraponto com outros momentos nos quais sentimos que o tempo não passa tão rápido assim. Mas a sensação de aceleração do tempo que temos vivido tem aparecido como queixa em nossos discursos, com certa lamentação por o tempo passar tão rápido assim, penso eu, porque não há contraponto! Não temos tempo para o tédio, para o buraco na agenda, para se achar sem graça o suficiente a ponto de nos interessarmos verdadeiramente pelo outro. Por fim, seria de bom tom que eu deixasse aos leitores uma mensagem positiva no final deste texto. Mas a verdade é que eu não tenho uma. Também não tenho dicas nem um método que eu desenvolvi. Então, minha mensagem final fica em fazermos pequenas alterações: podemos transformar “os corres da vida” em “as cores da vida”, por exemplo. Mas para isso a gente precisa da “sutileza” à qual Rubem Alves se referiu. Que a gente tenha tempo para ela.”
PERGUNTO:
– Será que seja por isso que temos dois ouvidos e apenas uma boca?
Pensem nisso!
Notas:
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3. As considerações da doutora Ana Suy Sesarino Kuss foram publicadas na Edição 161 da Revista Humanitas, publicação da Editora Escala, com o título Os “corres” da vida.
Muita paz e harmonia espiritual para todos.