“Como é que começa em você a criação, por uma palavra, uma ideia? É sempre deliberado o seu ato criador? Ou você de repente se vê escrevendo? Comigo é uma mistura. É claro que tenho o ato deliberador, mas precedido por uma coisa qualquer que não é de modo algum deliberada.”
Pergunta feita por Clarice Lispector (1920-1977), por carta, para o também consagrado escritor Fernando Sabino (1923-2004), que respondeu: – A criação começava por uma ideia. Era uma espécie de sentimento em mim que partia em busca dessa palavra, dessa ideia. Qualquer palavra, qualquer ideia. Hoje o sentimento ainda existe, mas tem-se dispensado de se exprimir através de palavras ou ideias – de certa maneira me contento com o próprio sentimento, que procura fora de mim alguma forma de expressão já existente com que se identificar. A música, por exemplo, especialmente a de Thelonious Monk.”
Sobre o seu processo de trabalho Clarisse perguntou como ele se inspira? Fernando Sabino respondeu de modo conclusivo: “A verdadeira inspiração é aquela que nos impele a escrever sobre o que não sabemos, justamente para ficar sabendo.”
Sobre o seu livro “O Encontro Marcado“, em 8 de janeiro de 1957 Clarice declarou:
– “Seu livro me espantou. Comecei lendo suas frases cortantes, que você por assim dizer não comenta e que parece ter a intenção de não dizer nada mais do que dizem, comecei sem saber aonde elas iriam parar. Perguntei-me de início aonde você pretendia levar o leitor e se levar. O que me espantou é que me vi inesperadamente dentro do livro, entendendo o que você queria, experimentando tudo, embora não soubesse ainda até onde você iria e vivendo com a velocidade de staccto com que o livro é escrito, esse modo de quem fala com a garganta seca. (…) E a história é ‘subjetiva’ sem a preguiça do subjetivo. O livro todo parece filmado em luz de rua, sem maquillage. Por isso dá às vezes a impressão desconcertante de falta absoluta de ‘literatura’ – e então se sente que este é o modo até sofisticado (sofisticado como contrário de naïve) de literatura. O estratagema é quase uma ausência de estratagema”.
Vejam esta opinião de
– “Digo apenas que não concordo com você quando você diz que faz arte porque ‘tem um temperamento infeliz e doidinho’. Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de todos nós, passou pela janela, na frente de todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado. Tem de ser equilibrista até o final. E suando muito, apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame ainda a percorrer – e sempre exibindo para o público um falso sorriso de serenidade. Tem de fazer isso todos os dias para os outros, como se na vida você não tivesse feito outra coisa, para você como se fosse a primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário seu número será um fracasso”.
Termino este nosso “BELO” encontro, com esta parte de outro diálogo por cartas trocadas entre os dois:
Clarice: Trabalhar é minha única moralidade.
Sabino: Viver não basta, é preciso uma convicção.
Clarice: Vou fazer uma confissão que salve tudo.
Sabino: Quando fizer uma confissão que salve tudo.
Clarice: Escreve o que pensa!
Sabino: Falo para os outros o que estou falando para mim mesmo.
Clarice: Uma espécie de estilo que está sempre sob o nosso estilo.
Sabino: Como esses livros que a gente escreve para desmoralizar nossa própria necessidade de escrever, fazendo na cozinha uma careta para as visitas que estão na sala.
Encantado, não tenho mais a dizer.
Nota:
– Toda a minha escrita revelam partes de trechos de “cartas” trocadas entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, divulgados na edição de sábado, 21 de dezembro de 2024, em “Cultura & Comportamento. C2. Foram selecionados e reproduzidos do livro “Cartas Perto do Coração – Fernando Sabino e Clarice Lispector”, publicação da Editora Record; organizado por Aurora Fornoni Bernardini, que é escritora, tradutora e professora titular da USP, no Departamento de Línguas Orientais e na Pós-Grduação no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada.
Espero você no nosso próximo encontro.
Muita paz e harmonia espiritual para todos.
– “